Poesias

Conceito

Para introduzir substancialmente a temática da poesia, considerei interessante a perspectiva de Jorge Camões Dias, que no seu discurso considera fundamental realizar uma leitura que interligue a teoria literária à prática da sensibilidade. O poema não se limita a ser uma unidade gramatical; ele configura-se como um território de resistência contra a linguagem puramente funcional e informativa do dia-a-dia. 

Segundo o autor, o conceito de poema prende-se com a "emancipação do imaginário". Isto significa que, ao contrário de uma notícia ou de um manual de instruções, por exemplo, o poema não procura transmitir uma verdade única ou um dado objetivo. A sua essência reside na capacidade de criar uma realidade espiritual e estética, onde o leitor é convidado a participar ativamente na construção do sentido. É um espaço onde a língua portuguesa se liberta das amarras da lógica utilitária para se tornar arte pura, permitindo que o invisível e o indizível ganhem forma através da escrita.


No que diz respeito à forma, o documento esmiúça uma distinção clara entre o tradicional e o inovador. Por um lado, temos o poema de estrutura convencional, aquele que reconhecemos pela sua verticalidade na página. Este tipo apoia-se na arquitetura do verso e da estrofe, utilizando a rima e a métrica como ferramentas para esculpir o som. É uma poesia que dialoga com a música, onde o ritmo dita a pulsação da leitura. Por outro lado, surge a poesia visual, que expande o conceito de texto para o domínio das artes plásticas. Aqui, o poema não é apenas para ser lido, mas para ser contemplado. A disposição das palavras no papel cria formas geométricas, desenhos ou diagramas que estabelecem uma relação direta com o tema tratado. Se um poema fala de um relógio, as palavras podem organizar-se de forma circular; se fala de queda, as letras podem dispersar-se pela página. Esta tipologia funde o código linguístico com o código visual, desafiando as convenções da leitura linear.


Ao analisar as características que conferem ao poema a sua identidade única, destaca-se, em primeiro lugar, a plurissignificação. Um texto poético é inerentemente polissémico: uma única metáfora pode evocar memórias, sentimentos e conceitos distintos em cada leitor. Esta abertura interpretativa deve-se ao uso intensivo de figuras de estilo como a metáfora, a personificação ou a aliteração que provocam o que os teóricos chamam de "estranhamento". O poema obriga-nos a olhar para as palavras como se fosse a primeira vez, retirando-lhes o pó do uso quotidiano.

Outra característica vital é a primazia do significante. No discurso comum, a palavra é um meio para chegar a um fim; no poema, a palavra é o próprio fim. O som de uma vogal, a dureza de uma consoante ou a pausa de uma vírgula são tão significativos quanto o dicionário. A isto soma-se a presença do Eu Lírico, a voz que habita o poema. Esta voz não é necessariamente o autor, mas uma entidade subjetiva que filtra a realidade através da emoção, tornando o texto poético um reflexo de estados de alma, reflexões existenciais ou críticas sociais profundas.


Referência bibliográfica:

Dias, J. C. (2016). A emancipação do imaginário: As potencialidades do texto poético no ensino básico [Relatório de estágio de mestrado, Universidade do Minho]. RepositóriUM http://repositorium.uminho.pt/server/api/core/bitstreams/8e415ba6-9437-4162-8e64-f1c2d88eadb0/content 


EXEMPLO 1: FUGINDO À DOR


Fugindo à dor que ninguém sente nem tem dó,

Fugindo à dor deste pobre homem só.

Quem lhe vê o ignora como se nunca fosse gente,

Um peso morto ou um indigente, porta dentro,  porta fora.


Fugindo a dor entre as letras duma canção,

Fugindo a dor como quem vive num porão.

Entre choques e censura, preso numa eterna clausura.

Fugindo à dor que nem eu mesmo sinto.


Fugindo à dor entre becos e perigos,

Ao sabor de belas artes, sobrevivo entre grades,

Em poemas bem doídos,  de pensamentos perdidos.


Fugindo à dor, só não vale eu morrer.

Pela cova esquecer, pelo túmulo me perder.

Quando Deus que está nos céus sabe bem cuidar de mim.


Fugindo à dor que ninguém sente nem tem dó,

Fugindo à dor deste pobre homem só.

Quem lhe vê o ignora como se nunca fosse gente,

Um peso morto ou um indigente, porta dentro,  porta fora.


Deste homem tenho pena, de mim mesmo tenho dó.

Ai de mim, um homem só.


Autor: Valdino Rodrigues Isidoro

Em, 27 de agosto de 2023


EXEMPLO 2: O MARKETING DA LIBERDADE


Nas artérias de pedra, onde o calcário desenha a história, O marketing de calçada não é venda, é memória. Não se combina com ecrãs frios ou luzes de néon, É a voz do povo soberano, no seu mais alto tom.

Neste treze de Janeiro, o anúncio que se faz, Não ostenta mercadoria, mas o produto da paz. A democracia é a marca, o logótipo é a união, Impressa na sola dos sapatos e na palma da mão.

Na Ribeira Brava ou no Tarrafal, o "cartaz" é o sorriso, De quem sabe que ser livre é o único paraíso. Propaganda sem artifício, feita de alma e verdade, Onde o maior lucro da ilha é, enfim, a liberdade.


Autora: Cristi Milena Brito Salvador

Em: 13 de janeiro de 2026

Extraído de: marketingdecalcada.blogspot.com 


EXEMPLO 3: O TEMPO EM UM POEMA


Há um tempo determinado para tudo;

Há um tempo para cada atividade debaixo dos céus:


Tempo para nascer e tempo para morrer;

Tempo para plantar e tempo para arrancar o que se plantou;

Tempo para matar e tempo para curar;

Tempo para derrubar e tempo para construir;

 Tempo para chorar e tempo para rir;


Tempo para lamentar e tempo para dançar;

 Tempo para atirar pedras e tempo para juntar pedras;

Tempo para abraçar e tempo para evitar os abraços;

 Tempo para procurar e tempo para dar por perdido;


Tempo para guardar e tempo para deitar fora;

Tempo para rasgar e tempo para costurar;

Tempo para estar calado  e tempo para falar;

  Tempo para amar e tempo para odiar;

Tempo para a guerra e tempo para a paz.


Adaptado da Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada

Sociedade da Torre de Vigia de Bíblias e Tratados

Extraído de: Eclesiastes 3:1-22 | Tradução do Novo Mundo (Edição de Estudo) | TNM Bíblia de Estudo

Publicado no blog a 9 de fevereiro de 2026 




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